
Não concordo com o texto a seguir, mas não deixa de ser interessante o texto...
Só quem nasceu – ou vive – numa família crente sabe a barra que é ser um descrente. Suportar o estigma de ‘filho pródigo’, de ‘desviado’, de ‘rebelde’ e outros epítetos congêneres não é pra qualquer um. Ainda mais quando se é nascido numa família pastoral de tradição fundamentalista!
No tocante a ser filho de pais crentes, aprendi - a duras penas - boas estratégias de lidar com a situação. Sem a pretensão de ser um 'manual de sobrevivência', o que se segue é a apresentação de alguns pontos que podem muito ser úteis no relacionamento familiar de filhos de pais crentes (ou mesmo num relacionamento onde um dos cônjuges é crente). Espero que esse tópico seja de auxílio a alguns.
1) Acima de tudo, antes de qualquer coisa, entenda que seus pais são vítimas.
Pra usar de uma ilustração: eles estão ‘possuídos’ por ‘alienígenas’ (as crenças e doutrinas). A sua missão é salvar eles do ‘controle alien’. Todavia, é muito difícil o processo de libertação. Então, tome muito cuidado, senão você acaba matando os ‘alienígenas’ junto com os seus pais.
Vou contar algo de minha experiência. Faz um tempinho que aconteceu: eu e minha mãe estávamos conversando sobre a minha posição frente à fé da família (talvez um dia você venha a conhecer minha mãe, uma mulher que admiro muito: sensível, inteligente e super gente fina). Minha mãe tem uma boa dose de ceticismo e é muito conhecedora da Bíblia. Então, nessa base, eu me aventurei a discorrer livremente. Dá pra imaginar os caminhos que tomou a conversa. O que tão somente fiz foi colocar a Bíblia contra a Bíblia, e não guardei meu senso de ironia. A conversa foi cada vez mais ficando acirrada. Imagina, minha mãezinha sofre de problema cardiovascular. A pressão dela subiu tanto que ela foi parar direto no hospital. E custou ela sair de lá. Todos os meus irmãos desesperados, uma agonia só. Imagina a minha situação... Diz-se que às vezes a gente ganha o debate, mas perde um possível aliado. Pois bem, nesse dia, eu quase perdi – literalmente – a minha mãe! Foi uma lição e tanto para mim.
2) Procure entender os motivos que levaram seus pais a aceitar o Cristianismo.
Converse com eles. Saiba da história de vida de seus pais. Descubra por que eles valorizam tanto a ‘igreja’. Quais são os desejos e os medos que eles têm? Descubra-os. Você vai se surpreender.
Sabe, muitos crentes defendem ‘com unhas e dentes’ a fé, mesmo sabendo que as crenças não dão conta diante das muitas evidências contrárias. Então, o que fazer? Não adianta teimar. Ficar forçando a barra não vai adiantar nada. Por que essa tal fé está ligada a motivos dos quais nem mesmo o crente está ciente. É tudo muito inconsciente. No fundo é uma mescla de amor e medo. E, ainda por cima, há as ditas ‘experiências espirituais’, as emoções dos cultinhos de domingo (tidas como sinal certo da ‘presença de Deus’), os condicionamentos de ‘certo e errado’, o ideal de justiça baseado no paradigma fundamentalista... Então, veja só, é uma coisa muito melindrosa.
3) Conheça a Bíblia. Estude a história do Cristianismo e também a história das doutrinas cristãs.
Esse ponto não precisa de muita justificativa. Você precisa ter base para argumentar contra a fé cristã. Leia as páginas da História. E também a Bíblia. Aliás, não há nada melhor do que a própria Bíblia. Alguém já disse com muito acerto: “O melhor livro a favor do Ateísmo é a Bíblia.” Leia-a.
4) Estude Psicologia e Filosofia.
Não estou lhe dizendo para que faças faculdade de Psicologia e de Filosofia. Há obras excelentes que valem mais que qualquer título de pós-graduação. A título de recomendação, eis algumas: “Elogio da Loucura” (Erasmo de Roterdam), “Dicionário Filosófico” (Voltaire), “Sexo – Em Busca da Plenitude” (Osho), “Deus e o Estado” (Bakunin), “Desobediência Civil” (Thoreau), e, o best-seller do momento: “Deus, um delírio”, de Richard Dawkins.
5) Permaneça vivo. Cometer suicídio é besteira.
Eu amo meu pai e minha mãe. Mas odeio – de morte – as crenças deles. Todavia, as malditas crenças estão neles. Difícil, né? Nesse caso, você tem que ser mais astuto do que a lendária serpente.
Numa família fundamentalista, há um problema sério quando um filho conversa com o pai ou com a mãe. É aquela velha cantiga: ‘os-novos-devem-respeitar-os-mais-velhos
’... É o ‘joguinho da autoridade’. Para muitos pais, mesmo os não-religiosos, colocar em dúvida o que eles acreditam é contestar a própria posição deles, e, por conseguinte, a própria ‘razão de ser da família’. Então, seja cauteloso.
Não bata de frente. Não seja ‘afoito’. Fazer isso com os pais é o mesmo que cometer suicídio. Pra que se matar quando se é jovem? Deixe para se matar quando você estiver usando dentadura.
6) Seja um ‘Ingênuo’.
Você conhece o ‘Ingênuo’, um dos personagens de Voltaire? Imite-o. Faça perguntas ‘inocentes’, sem animosidade, porém, certeiras.
Certa vez eu perguntei para meu pai (que tem a mania de dizer ‘Deus me falou’): “Como é a voz de Deus? É grave ou é aguda? È semelhante à voz de um homem ou a voz de uma mulher?”. E perguntei pra minha mãe: “Eu posso chamar Deus de ‘Mãe Nossa’?” Perguntas assim desconcertam e quebram a ‘rotina mental’ das pessoas. Uma simples pergunta pode ser o fim de uma crença.
Seja um Sócrates. Atenha-se ao trabalho de ‘parir’ heresias (criatividade de opiniões).
7) Seja um bom ouvinte.
Procure ouvir mais e falar menos. Treine ser um bom ouvinte, um ouvinte ativo. Fale pouco, e quando for falar, faça sempre em tom de quem faz uma pergunta. Quando você permite que os outros falem, eles mesmos irão pouco a pouco se dando conta das contradições doutrinárias.
Plante e regue as sementes da dúvida. E dê tempo ao tempo. Cada qual leva um tempo para absorver e trabalhar as informações que recebem. Cada um trabalha suas emoções e raciocínios de forma bem diferente.
Minha mãezinha hoje já não defende mais a Bíblia como sendo ‘a palavra de Deus’. Ela mesma já afirma que “tem muita coisa aí escrita que não é de Deus”. Isso é um tremendo avanço!
Tudo a seu tempo. Sem muita pressa. Pois, nós também tivemos o nosso ‘processo de libertação’ – que certamente não foi da noite pro dia.
8) Evite fazer provocações gratuitas.
Faça valer para ti mesmo o dito: “Seja simples como a pomba, mas prudente como a serpente”. Não faça o papel da ‘ovelhinha-que-se-desgarrou-do-aprisco’. O que não significa que você vai fazer caras e bocas de lobo-mau, né? Se você tem amor à própria pele não saia por aí exibindo a sua tatuagem de ‘666’.
9) Alimente o leão com a fome.
Pratique o ponto 3 de preferência na frente de seus pais. Deixe que seus pais vejam você lendo a ‘santa palavra’. Eles vão pensar que o divino-espírito-santo ‘está lhe tocando’! E então, quando eles lhe convidarem para o ‘culto’, responda: “Eu ainda não fui convencido pelo Espírito Santo. Quando Ele me convencer...” Fale isso com elegância e sincera cortesia.
10) Em casos críticos, acerte bem no alvo!
Se seus pais estão lhe agredindo com palavras, fazendo uso de preconceito e até mesmo lhe coagindo, faça a vez dos profetas. Não deixe por menos. Escolha um profeta do seu gosto (o meu preferido é o Jeremias) e ‘declare a palavra do Senhor’! Eis aqui alguns versículos que selecionei para você fazer bom uso deles:
“Toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmia sejam tiradas dentre vós, bem como toda a malícia.” - Efésios 4:31
“Nem por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor” (Zacarias 4:6).
Enfatize que é “o Espírito Santo” quem convence – João 16:7-8
Você pode comprar um ‘adesivo gospel’ tipo “Dai-me paciência, Senhor!” e colocar na porta do seu quarto.
Você também pode recitar o poema de 1 Coríntios 13. (Pra ficar mais interessante, de vez em quando coloque o Renato Russo pra cantar o 1 Coríntios 13 com aqueles versinhos de Camões. É uma benção!)
11) Que tal ser um vírus?
Detesto esse conselho. Não faz bem o meu tipo. Mas, em algumas situações, até que ele é válido. E funciona muito bem. Bom, por mais estranho que possa parecer, faça o seguinte: ‘converta-se’. Faça a vez dos alquimistas! Transforme o que é tão tedioso em pura diversão. Agora é a sua vez de abalar: use a Bíblia para corrigir os próprios crentes! Ironize as situações engraçadas (há muitas!), ironize as ‘modas gospel’, colabore com as intrigas, corrija o pastor quando ele entrar em contradição... Mas faça tudo isso com bastante jeitinho. Use e abuse da imagem do ‘servo bom e fiel’. Danifique o sistema estando dentro dele. Seja um vírus! E então espere ser convidado a se retirar para nunca mais voltar. Já pensou, que libertação!
12) Contra o argumento da força, use a força do argumento.
Seus pais não estão entendendo o que diz a ‘santa palavra’? Não se desespere. Mostre pra eles que você é um indivíduo, que você pensa por si mesmo e que não nasceu pra ser papagaio do Pirata Jesus. Diga mansamente, mas com determinação: “Deus tem filhos. Ele não tem netos. Eu não sou um filho de Deus. E nem quero ser.”
Pronto! Final feliz.
Ops... mas e se tudo isso falhar? O que devo fazer? Talvez você esteja fazendo essa infeliz pergunta. Pois bem, nesse caso eu tenho a lhe oferecer uma infeliz resposta. Mas, Santa Paçoca!, o que mais lhe resta fazer?
Em último caso, não ofereça a outra face.
Sem essa de oferecer ‘a outra face’. Isso é serviço de cristão. Se apesar de todos os seus esforços você não é deixado em paz, o jeito então é fazer um beózinho básico. Que você acha? Sim, você pode processar seus pais... Por que não? Afinal de contas, eles estão lhe causando danos morais! Mas esse é um ato extremo, né? Entendo. Você nem sequer cogita nisso. Afinal de contas, você ama aos seus pais. Então, faça o seguinte: saia da casa de seus pais. De preferência rumo à universidade! Já pensou nisso?
Olha, há muitas alternativas a fazer ‘em último caso’. Até mesmo a de ser um andarilho. Ou quem sabe montar uma banda de rock e cair na estrada... ou, quem sabe, arranjar um bom trabalho noutra cidade... até seus pais perceberem que o mundo não nasceu quadrado!
Bom, realmente não importa o que você faça. O que você não pode mesmo é abrir mão do seu único real valor: ser um indivíduo. Esteja sempre consciente disso. Essa é a minha convicção. E é o resumo de tudo quanto escrevo, bem como de tudo quanto faço no meu dia-a-dia. É isso.
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