segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Realidade da vida na Italia




Por Anai...

Sempre recebo emails de pessoas que me perguntam como está sendo nossa vida na Italia, como são as coisas por aqui, quanto gasto, quanto ganho...
Respondo a todos da melhor forma, tentando não me deixar influenciar pelas decepções que tive e estou tendo aqui no dito “Primeiro-Mundo”. Mas agora resolvi colocar o preto no branco e falar com números a rotina de uma familia da classe operária na Itália.
Nunca acreditei que existisse um paraíso, como muita gente diz e pensa, um lugar onde não tenha violência, onde o governo ajude quem precisa e estas balelas que a gente vê todo dia nos grupos de discussão sobre morar no exterior.
Mas quando vim pra cá, esperava que fosse um país, onde se tivesse condições de trabalhar e viver dignamente. Pensava que no Brasil, com tanta corrupção e desigualdade social, meu filho não pudesse ter um futuro digno, e já que tinha a chance de viver legalmente em um país de 1° mundo pelo fato de meu marido ser descendente de italianos, porque não tentar?
Estou aqui há oito meses, meu marido vai fazer um ano, podemos dizer que somos privilegiados, pois com tanto desemprego e sub-emprego por aqui, meu marido conseguiu, graças a indicação de vizinhos, um trabalho bom, numa boa fábrica que paga acima da média das outras fábricas aqui.
Até então tudo bom, eu trouxe um pouco de dinheiro pra cá quando vim, pra ajudar nessa transição inicial, que aos poucos foi acabando. Descobri que pra mulher com filhos trabalhar aqui é muito difícil, pra não dizer que beira ao impossível. Meu filho vai fazer 3 anos agora em setembro e já vai pra escolinha, mas isso não alivia muito minha situação. O horário escolar aqui é das 8 da manhã ás 4 da tarde, e pra trabalhar aqui, teria que contratar uma pessoa pra ficar com meu filho fora desse período, o que custaria mais do que ganharia pra trabalhar, e acrescido ao fato de que se tem muita gente sem filhos, italianas e italianos competindo as mesmas vagas no mercado em condição mais favoráveis que as minhas.
Tenho muita fé em Deus, e creio que ele tem.....

nos ajudado pois meu marido tem feito horas extras desde que começou a trabalhar, senão não sei como faríamos pra manter o básico.
Tudo aqui se paga pro governo, e não é pouco não.
A gente tá acostumado a meter o pau no Brasil, mas a coisa por lá não é muito pior que aqui (pelo menos na região desenvolvida que eu morava).
Pra se ter uma idéia, o Sistema de Saúde aqui não é público como no Brasil, você tem que pagar uma porcentagem sobre cada procedimento, exame ou consulta especializada. Gratuido é só para crianças com menos de 6 anos (mesmo assim tem exames que se deve pagar) , maiores de 65 anos e em casos de doenças como Câncer e outras com grande malignidade. E mesmo pagando, não tem qualidade, agradeço a Deus por saber um pouco sobre doenças e medicamentos e poder medicar meu filho nos casos mais leves, senão....
Os remédios que sempre ouço dizer que são gratuitos, outra balela. O governo tem uma lista de medicamentos ditos reembolsáveis, dos quais se paga só o referente há uns 3 euros, mas são só medicamentos pra doenças específicas como diabetes, hipertensão, e outras de programas de saúde geral, que na maioria são medicamentos obsoletos, que no Brasil, pelo menos na região onde morava, com seu grau de desenvolvimento de saúde nem se prescreve mais.
Um exemplo, meu filho sofre de alergia, o medicamento reembolsável é só o a Loratadina, os de última geração que são milésimas vezes mais confiáveis e se vc quiser, tem que pagar (e caro), pois não contam da lista.

Deixando de lado a saúde e se atendo a educação, o ensino fundamental aqui é gratuito, vc só paga a alimentação( caiam das pernas, mas uma refeição, só o almoço pois os lanches temos que mandar de casa custa por mês aqui 75 Euros, referente a 20 refeições, meu filho só tem 3 anos e come como um passarinho...) e o ônibus escolar (37 Euros ao mês).
Além de que nas séries básicas de ensino que aqui se chamam média e média superior, devemos comprar os livros que são caríssimos.
Universidade, só pra quem tem grana, além de paga, tem muito pouco curso noturno, o que impossibilita os estudantes a trabalhar e pagar o curso. Além do fato de não se ter, como no Brasil, uma faculdade em cada esquina, o que leva a ter que residir nos grandes centros, com moradia e custo de vida mais altos.
Serviços públicos aqui, tudo tem sua taxa.
A coleta de lixo que estamos acostumados no Brasil, aqui não existe, vc tem que pegar seu carro com o lixo e procurar uma caçamba mais próxima pra colocar, e ainda pagar por esvaziarem essa caçamba, no meu caso que minha família é de 3 pessoas 285,99 Euros por ano, quase 25 euros por mês.

Pra assistir a tv, por aparelho instalado, se tem uma taxa anual de 123 Euros, e olha que a programação aqui é patética...
Quanto á água, lúz e gás, os preços são bem altos, como são pagos bimestralmente e trimestralmente e o gasto varia de acordo com a estação, eu fiz uma média mensal pelo que já paguei e para os três serviços juntos vc deve desembolsar uma média 150 Euros ao mês.
Agora tivemos um aumento no gás que passa a ser válido a partir desse mês, e a energia ano que vem também aumenta de novo.
Além do fato de que pagamos uma taxa de 10% pro governo em cima dos gastos com os serviços acima, um imposto que aqui se chama IVA, que incide sobre tudo, uma espécie de ICMS, que sobre todos os outros produtos (do supermercado ao crédito de telefone) é de 20%.
Sobre seu salário mensal, vem descontado todo mês, 10% de imposto previdenciário e cerca de 5% de imposto de renda, fiz os cálculos já descontando restituição anual. Na prática quando vc recebe seu salário, quase 15% vai para o governo, fora os outros pequenos descontos pro Comune, pra Provincia...
Sei que circulam na Internet várias lendas urbanas que o governo te ajuda, mas como disse são lendas...o que se tem é que em determinadas províncias fazem um desconto, uma espécie de restituição chamada agevolazione, mas isso é caso isolado.
O que de real recebo aqui, é um benefício que vem junto com o salário de meu marido, de 130 Euros como salário família, que ele perderá quando eu começar a trabalhar, se começar.
Transporte público aqui é ruim e caro, pra ir á Portogruaro, uma cidade há 8 Km da minha (aqui só as cidades maiores têm hospital e pronto socorro) pago só em um bilhete de ida e volta 3,50 Euros. Pra ir á Veneza que fica há 55 Km gasto entre trem e ônibus ida e volta pra uma pessoa 11 Euros.

O jeito é ter carro, e carro aqui é barato, o difícil é mantê-los, vc tem que pagar uma taxa de inscrição na frota que este ano (antes do aumento do bollo) foi de 138 e alguma coisa, mais 1056 Euros de Seguro Obrigatório, mais 36,80 de revisão duenal, mais 15,00 de um selo que reza que seu carro não polui ....isso tudo se teu carro estiver em boas condições...Além da taxa de transferência quando vc adquire um carro, que nas classes de baixa cilindrada é de 438 Euros.
Pra se tirar uma carta de habilitação aqui se vão 1000 Euros( na Inglaterra por exemplo, onde vc não é obrigado a frequentar auto-escola se já é habilitado e pode fazer o teórico em português, se paga 32 Libras).
Se vc colocar tudo na ponta do lápis, com certeza vc vai chegar a conclusão de que com um salário de 1000 Euros, mais de 50% vai pro governo, eu fiz osw cálculos, somando o IVA de minha despesa, os impostos sobre o salário mensal, e sobre os serviços com base mensal e deu a cifra assutadora de 52,88% do que meu marido ganhou no mês, o que sobra do governo, você rebola pra pagar aluguel, e comer, lazer fica pra depois.
Esta semana estava vendo a discussão entre o Sindicatos de proprietários de imóveis em aluguel e o governo, pra abaixar os impostos sobre os mesmos, já que quase 40% dos aluguéis que estes recebem vão para os bolsos do governo.
Sei que tem gente que deve estar perguntando, o que eu faço aqui então, porque não vou embora em vez de ficar reclamando do país.
Infelizmente a coisa é mais complicada, quando se deixa um mundo prá trás e se parte pra um novo, retornar é muito difícil, temos que tentar o máximo possível antes de admitir a derrota.
Além do fato que apesar de tudo, não me arrependo, conheci uma nova lingua, uma nova cultura, cresci no meu modo de ver e analisar o mundo e isso não tem preço.

Mas voltando á realidade italiana, gostaria de saber como um país com tantos impostos pode estar (é a notícia mais falada nos jornais) com um défcit tão grande nas contas públicas e amargar uma taxa de crescimento 0, com prospectivas nada positivas pra 2006.
Mas como sou leiguíssima em economia e política, me atenho a fazer meus cálculos domésticos e acrescentar pra quem pretende vir prá cá, que com menos de 1300 Euros ao mês aqui não se vive. Pelo menos pra uma família. Tem aquelas pessoas que vem, pagam uns 250 Euros de moradia numa vaga, comem pasta (macarrão) a semana inteira, lazer passa longe e depois juntam uns trocados que no retorno ao Brasil, com o câmbio favorável , enche os olhos.
Sei que no Brasil, tem gente que vegeta com salário mínimo, sustentando família, isso é muito mais triste, e graças a Deus não era minha realidade lá.
Mas não creio que sejam essas pessoas simples, de pouco conhecimento, que se arriscam a vir pra cá e fazer a cidadania.
Por isso que resolvi escrever este post, pra deixar os cálculos que permitem a quem ler, fazer os prós e os contras com números reais da sonhada Cidadania Italiana. Levando em conta o fato que moro no Norte da Italia, numa das regiões mais ricas.

RETIRADO DO ORKUT

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