O termo grego traduzido na Bíblia como eternidade é AIWN. Será demonstrado que eternidade, como se nos mostra através da Bíblia, implica em um grande período de tempo. Termos mais próximos, ao português, seriam "era" e "idade", além do clássico "século". Na escatologia judia do primeiro século, o AIWN futuro representava a era por vir, em que o Messias mudaria todas as coisas, enquanto o AIWN presente era o mundo corrompido e cheio de aflições. A partir do substantivo AIWN é derivado o adjetivo AIWNIOS.
Cognatos em outras línguas incluem aeuum (Latim, "periodo de tempo, eternidade") e ayu (Sânscrito, "época, vida"; como em ayurveda). No caso do latim, aetas deriva de aeuum, e significa "idade". O vocábulo em português, "eterno", deriva do latim aeternus, que é uma contração fonética de aeuiternus, derivado também de aeuum. A raiz proto-indo-européia destes termos é *AIW-, "força vital, vida longa, eternidade".
Selecionei uma lista de pontos em que, na Bìblia, o termo AIWN aparece. A lista não é exaustiva; diversos exemplos foram deixados fora, especialmente ao Antigo Testamento. Todos estes exemplos que constam, porém, por um motivo ou por outro, são pertinentes ao estudo do termo. Não é preciso que se verifiquem todos os exemplos no grego; alguns exemplos-chave serão mostrados.
Antes, um aviso aos leitores com pouco conhecimento da morfologia grega: Um mesmo termo em grego pode ser escrito com terminações diferentes. São declinações morfológicas, chamadas de casos, semelhantemente como acontece no Latim e no Alemão. Um caso modifica a parte final da palavra para que ela adquira um posicionamento sintático diferente (de sujeito para objeto indireto, por exemplo, como no caso Dativo), sem, porém, alterar o significado da palavra. Grosseiramente falando, existem no grego quatro casos:
Nominativo, Genitivo, Acusativo e Dativo (o Ablativo, o Locativo e o Instrumental não são casos morfologicamente distintos dos demais; e o Vocativo é irrelevante para este substantivo).
Então, por exemplo, AIWN significa "eternidade" (nominativo, singular), mas AIWNWN significa "das eternidades" (genitivo, plural). Geralmente no dicionário se encontrará a palavra no Nominativo singular e seguida do Genitivo singular.
Declinação de AIWN:
Nominativo: sing. AIWN, pl. AIWNA.
Genitivo: sing. AIWNOS, pl. AIWNWN.
Acusativo: sing. AIWNA, pl. AIWNAS.
Dativo: sing. AIWNI, pl. AIWSIN.
Antigo Testamento (Septuaginta): Êxodo 15:18; Deuteronômio 5:29; 12:28; 28:46; Josué 8:28; Neemias 9:5; Provérbios 8:23; Eclesiastes 3:11; Isaías 26:4; 32:14; 32:17; 34:9,10; 45:17; 46:9; 51:9; 60:21; 63:9; Jeremias 7:7; Lamentações 3:6; Daniel 2:20; 7:18; Malaquias 1:4.
Novo Testamento: Mateus 28:20; Marcos 3:29; 10:30;11:14; Lucas 1:33,55,70; 18:30; 20:34,35; João 4:14; 6:51,58; 8:35,51,52; 9:32; 10:28; 11:26; 12:34; 13:8; 14:16; Atos 3:21; Romanos 1:25; 9:5; 16:27; 1 Coríntios 2:6-8; 8:13; 10:11; 2 Coríntios 4:4; 9:9; 11:31; Gálatas 1:4,5; Efésios 1:21; 2:7; 3:9,11,21; Filipenses 4:20; Colossenses 1:26; 1 Timóteo 1:17; 2 Timóteo 4:18; Tito 2:12; Hebreus 1:8; 5:6; 6:5; 6:20; 7:17,21,24,28; 11:3; 13:8,21; 1 Pedro 1:25; 4:11; 5:11; 2 Pedro 3:18; 1 João 2:17; 2 João 1:2; Judas 13, 25; Apocalipse 1:6,18; 4:9,10; 5:13; 7:12; 10:6; 11:15; 14:11; 15:7; 19:3; 20:10; 22:5.
É fácil perceber que as mais diversas versões em português, em qualquer passagem bíblica, nunca fogem às seguintes traduções para AIWN:
- Tempos anteriores à Criação (Provérbios 8:23).
- Passado longínquo (Lamentações 3:6 - certamente aqui não cabe o conceito moderno de eternidade).
- Uma época humana (Jeremias 7:7).
- Dois períodos consecutivos (Daniel 2:20).
- O nosso atual período (2ª Coríntios 4:4).
- O mundo vindouro (Lucas 20:35).
- Os futuros (Daniel 7:18).
- Eternidade (Gálatas 1:5).
Polissemia? Provavelmente não. A mudança semântica, se houve, provavelmente ocorreu depois da confecção do Novo Testamento grego, e existe uma expressão bíblica que prova isso muito bem. Essa expressão ocorre diversas vezes em Apocalipse (ex: 7:12), mas também em outras partes do Novo Testamento, como em Paulo.
EIS TOUS AIWNAS* TWN AIWNWN**
Ou seja: "pelos séculos dos séculos", "durante eras dentre as eras", "de geração em geração" (sintetizado como "eternamente" em algumas traduções).
* Acusativo plural.
** Genitivo plural.
Se a mudança semântica (de era/época/período para perpetuidade) já estivesse concreta na época em que o Novo Testamento foi confeccionado, tal expressão simplesmente não faria sentido, assim como seria hoje em dia dizer "os infinitos dos infinitos". O que esta expressão quer expor é, através de um semiticismo (como em Rei dos reis, Senhor dos senhores, Santo dos santos), a idéia de perpetuidade. Se AIWN pudesse realmente ser "perpetuidade", os autores do novo testamento escreveriam a palavra uma única vez, e no singular, não duas vezes no plural!!
No hebreu, a expressão é OLAM, e significa, dentro do contexto bíblico, a mesma coisa. Digo isso porque OLAM e AIWN são termos de origens distintas. No paradigma semítico, uma "era" representa simplesmente um período de tempo, enquanto no paradigma indo-europeu, uma parte de um ciclo. Embora escrevessem e pensassem em grego, os autores do Novo Testamento em todo tempo se voltavam ao conceito primitivo semítico, conforme as escrituras do Antigo Testamento lhes ensinavam.
A este respeito, as passagens a ser observada talvez seja, tanto no grego da Septuaginta quanto no hebreu da Tanakh, sejam Êxodo 21:6; Deuteronômio 15:17; 1 Samuel 27:12.
Eternidade, portanto, é etimologicamente um período de tempo indeterminado (mas não necessariamente sem fim). Quando os humanos, no Éden, são incitados a comerem e viverem para sempre (Gênesis 3:22), significa dizer que viveriam indefinidamente. Quando Samuel é entregue eternamente (1 Samuel 1:22), implica em dizer que seu ministério dura vitaliciamente, ou seja, não tem fim pre-determinado (ver também 1 Samuel 20:15; 2 Samuel 3:25). O rei certamente não vive para sempre (Salmos 20:4,5). Quando o salmista afirma que louvará ao Senhor para sempre, significa dizer que louvará ao Senhor por todo o tempo que viver (Salmos 30:12).
Não é muito diferente de como nos expressamos na língua portuguesa. Na Bíblia, para sempre tem fim: Isaías 32:14,15!
Isso não significa, por exemplo, que por Deus ser eterno (Gênesis 21:33) ele terá um fim. A expressão usada para qualificar a longevidade de Deus é aquela já mostrada acima: pelos séculos dos séculos, de eternidade em eternidade (Apocalipse 7:12). Ou seja: Deus vive durante uma eternidade, vive a próxima, vive a que vem depois, e assim por diante. Muita coisa, porém, como foi mostrado, é eterna, mas tem fim. A eternidade está associada à permanência da coisa, não à sua indestrutibilidade. Já viu o filme do Highlander? É a mesma coisa.
Consequências escatológicas
Este conceito reconstruído de eternidade quebra completamente o dualismo clássico paraíso-condenação, originalmente inexistente no Judaísmo. Nesta religião não existe a idéia de que após a morte os justos são enviados ao Paraíso e os condenados ao Inferno (bem como outros lugares intermediários); tal doutrina é parte da escatologia católica. Pelo judaísmo primitivo, finda a vida após a morte (Jó 3:11-19; 7:7-10; 10:18-22; 11:20; 14:10-14; 17:16; Salmos 115:17; Eclesiastes 6:1-5; 9:1-10); somente após influência helenística houve abertura do judaísmo para uma crênça em vida após a morte (4 Macabeus 13:17; 18:23; Sabedoria de Salomão 9:14,15; 15:8; 16:14). De fato acreditar que após a morte cada indivíduo é direcionado ao seu destino contradiz a idéia de Ressurreição dos Mortos do judaísmo.
Originalmente, o Inferno (Seol, Hades) é a sepultura, o subsolo (Números 16:33; Filipenses 2:10). Estejam conscientes ou não os mortos no Hades, ele não é um lugar de fogo, enxofre e espectros torturados. É apenas o destino final da vida (Atos 2:27,31). O paralelismo judaico sempre associa morte ao inferno: 2 Samuel 22:6; Salmos 18:5; 55:15; 116:3; Provérbios 5:5; 7:27; Isaías 28:15,18; Oséias 13:14; Habacuque 2:5; Apocalipse 1:18; 20:13,14.
Estes dois últimos versículos são altamente significativos; mostram o Inferno e a Morte sendo jogados no lago de fogo e enxofre.
Na Bíblia em grego, há duas palavras principais que são traduzidas como 'Inferno'. São 'AiDES (Hades) e GEENNA (Gehenna). Enquanto a primeira é traduzida simplesmente como 'Inferno' (Mateus 16:18), a segunda aparece algumas vezes como 'fogo do Inferno' (Mateus 5:22; Marcos 9:43). A origem do segundo termo é amplamente conhecida: havia um vale próximo a Jerusalém, o vale do filho de Hinom ("Gehinom"; Josué 15:8; 2 Reis 23:10; Jeremias 7:31,32; 32:35). Neste vale, pais sacrificavam seus filhos no fogo, em culto a Baal-Molek (Moloque), uma divindade fenícia, em um "alto" (santuário pagão). Esta imagem foi usada no Novo Testamento para exemplificar a condenação dos pecadores. Neste tópico, reconheceremos como Inferno o Hades, enquanto 'Geena' será conhecido por este nome.
Cristãos como Tertuliano (sécs. II e III; "Tratado sobre a alma", "Sobre a ressurreição da carne"), Hipólito de Roma (séc. III d.C.; "Contra Platão"), Victorino (sécs.III e IV d.C.; "Comentário ao Apocalipse de São João") acreditavam que o Hades era um lugar de espera para tanto os justos quanto os injustos. A região destinada aos justos seria chamada de "Seio de Abraão". Em obras como as de Platão (sécs. V e IV a.C.), anteriores ao helenismo, já existia a idéia, no imaginário grego, de que após a morte justos iam para uma ilha de alegria, enquanto os injustos eram acrisolados por certas torturas, até que pudessem se purificar. Aliás, o já citado Tertuliano, na obra "Tratado sobre a Alma", capítulo 54, faz referência ao Hades de Platão na obra Fedo. No capítulo 55, Tertuliano interpreta Apocalipse 6:9 como sendo uma referência de que apenas os mártires tinham acesso direto ao Paraíso. Segundo ele, a chave do paraíso é o sangue do próprio cristão.
Já no capítulo 58, ele é taxativo em afirmar (concordando com Hipólito): todos esperam no Hades a ressurreição dos mortos (excetuemos os mártires).
Não cabe decidir se estavam errados ou não acerca de suas concepções de Inferno (embrião do conceito católico de Purgatório, desenvolvido por outros autores); anote-se, porém, que a concepção dominante de 'Inferno' demorou para se solidificar. O próprio Tertuliano admite influência pagã por parte dos escritos de Platão, embora ele seja mais seletivo, rejeitando, por exemplo, o Hades de Homero.
Que diz a Bíblia a respeito de Hades e Geena?
HADES
- A Bíblia ensina que a Igreja de Cristo venceria o Inferno (Mateus 16:18).
- A Bíblia ensina que é possível abater uma cidade até o Hades (Mateus 11:23; Lucas 10:15).
- A Bìblia ensina que a alma de Cristo não foi abandonada no Hades (Atos 2:27,31)
- A Bíblia ensina que o Inferno (juntamente com a Morte) será jogada no Lago de Fogo, logo antes dos mortos do mar e do inferno e da própria morte serem jogados fora (Apocalipse 20:13,14).
- A Bíblia ensina que Jesus tem as chaves da morte e do Inferno (Apocalipse 1:18). Se isto implica em um inferno geográfico, certamente implica em uma morte geográfica.
Até aqui, nenhum ensinamento acerca da infinitude da condenação..
GEENA
- A Bíblia ensina que o Geena é um tipo de condenação para pecadores (Mateus 5:22; 23:33)
- A Bíblia ensina que o corpo (não a alma exclusivamente) é lançada no Geena (Mateus 5:29,30; 10:28).
- A Bíblia ensina que quando o corpo e a alma são jogados no Geena, são destruídos. O verbo empregado é APOLLYMI ("destruir"), e se encontra no infintivo aoristo, ou seja: uma destruição pontual, não um processo de torturamento (Mateus 10:28).
- A Bíblia diz que o fogo do Geena é AIWNIOS (Mateus 18:8,9; 25:41).
- A Bíblia ensina que no Geena o verme não morre e o fogo não se apaga (Marcos 9:42-50; cf. Isaías 66:22-24).
Até aqui, novamente, nenhuma parte ensina que a condenação não tem fim.
A passagem-chave usada pelos fundamentalistas para defender a existência de uma condenação sem fim é Mateus 25:46 (continuação de Mateus 25:41, já citado). O complemento nominal usado tanto para condenação quanto para a vida é AIWNIOS, que é um adjetivo derivado de AIWN. Mas já foi demonstrado com diversos exemplos que AIWN não retrata uma eternidade sem fim, mas uma eternidade finita.
Surge então, a questão: Se a condenação eterna tem fim, então a vida eterna tem fim?
A resposta talvez esteja em Lucas 1:33. Deste versículo aprendemos duas coisas importantes:
a) Que ser eterno e ser temporalmente infinito são coisas distintas. Se fosse diverente, não haveria conectivo por conjunção.
b) Que o reino de Cristo não terá fim. Se o reino não terá fim, e os cristãos são o Reino de Deus (pela perspectiva do próprio Lucas: 17:21; 19:12), é fácil deduzir que mesmo depois de findo o AIWN de Cristo (2 Pedro 1:11), Deus continuará a reinar (1ª Coríntios 15:23-28). Não morreremos depois porque a morte terá sido aniquilada (1ª Coríntios 15:51-55; Apocalipse 21:3-5).
Difícil é imaginar como não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, se a condenação é para sempre. Portanto, o Hades é o estado (lugar?) do indivíduo após a morte. Geena é uma condenação futura, depois do retorno messiânico de Cristo. Por esta condenação passarão aqueles que não foram achados dignos, mas esta condenação durará 'uma era'. É difícil saber se é a isto que Paulo se refere em 1ª Coríntios 3:15.
Quais os critérios usados por Deus para admissão? Não sei.
Sabemos que aqueles que não ouviram a palavra de Deus e a rejeitaram, pisando as boas novas, já estão condenados (João 3:18,19; 12:47,48). Com relação aos que nunca ouviram o Evangelho, ou que viveram antes dele, não há como responder.
Há muitos exemplos de como "fogo eterno" não significa continuar sofrendo indefinidamente.
Compare Apocalipse 14:10,11 a todas as seguintes passagens:
- Josué 8:28 (AIWN).
- Isaías 34:9,10 (AIWN); 66:22-24.
- Judas 7 (AIWNIOS).
- Apocalipse 19:3 (AIWN).
Duas passagens que provam também cabalmente como AIWNIOS mantém o significado de AIWN, da mesma forma que "lunar" mantém o significado de "lua", são 2 Timóteo 1:9 e Tito 1:2.
Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.
http://cristianismopuro.blogspot.com/2008/04/o-eternidade-e-o-erro-na-interpretao-do.html
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